Uma confusão comum entre os viajantes é tratar a cidade como um país independente. Para compreender como as decisões urbanas, as leis de convivência e as estratégias de turismo são aplicadas de forma tão ágil, é necessário entender o sistema de governo de Dubai.

O modelo político local é único no mundo contemporâneo: trata-se de uma federação composta por monarquias absolutistas hereditárias. Abaixo, explicamos pedagogicamente como funciona a divisão de poder e como a administração do país afeta a sua experiência como turista.

 

A Federação: Os Emirados Árabes Unidos

Dubai não é um país, mas sim um dos sete emirados que compõem os Emirados Árabes Unidos (EAU), fundados em 1971. Os outros seis são Abu Dhabi (a capital política e financeira do país), Sharjah, Ajman, Umm Al Quwain, Ras Al Khaimah e Fujairah.

O sistema de governo nacional funciona sob a autoridade do Conselho Supremo Federal, que é composto pelos governantes (Emires ou Sheikhs) dos sete emirados. É este conselho que elege o Presidente e o Vice-Presidente do país.

Na prática, existe um acordo histórico e imutável de divisão de poderes entre os dois emirados mais ricos e influentes:

  • A Presidência do País: É sempre ocupada pelo governante de Abu Dhabi (chefe da família Al Nahyan), que detém a maior reserva de petróleo e o controle militar.
  • A Vice-Presidência e o cargo de Primeiro-Ministro: São sempre ocupados pelo governante de Dubai.

 

A Monarquia de Dubai e a Família Al Maktoum

No nível local, o governo de Dubai opera como uma monarquia absoluta. Não há eleições presidenciais, partidos políticos ou parlamento com poder de veto legislativo. O emirado é governado pela dinastia da família Al Maktoum desde a sua fundação em 1833.

Atualmente, o governante de Dubai é o Sheikh Mohammed bin Rashid Al Maktoum. Ele acumula os cargos de Emir de Dubai e de Vice-Presidente e Primeiro-Ministro de todos os Emirados Árabes Unidos.

A principal característica do modelo de governo em Dubai é a sua administração com formato corporativo. O governante atua quase como o CEO de uma megacorporação. Essa concentração de poder de decisão em uma única figura executiva (sem a burocracia de aprovações parlamentares comuns no Ocidente) é a explicação lógica para a velocidade com que Dubai aprova, financia e constrói seus megaprojetos de engenharia e infraestrutura turística.

 

O Sistema Legal e a Flexibilização para Estrangeiros

O sistema jurídico do país tem dupla fundamentação: baseia-se no direito civil e na Sharia (a lei islâmica). Historicamente, a Sharia regulava questões de ordem civil, criminal e de direito de família (casamento, divórcio e herança).

No entanto, como mais de 85% da população de Dubai é composta por estrangeiros, o sistema de governo compreendeu que era necessário adaptar a legislação para manter o emirado competitivo no cenário global de turismo e negócios. Nos últimos anos, o país implementou as maiores reformas seculares de sua história, criando leis paralelas para expatriados e turistas ocidentais.

Hoje, atitudes que antes eram infrações baseadas na lei islâmica foram descriminalizadas para estrangeiros, como:

  • A permissão legal para que casais de turistas não casados possam dividir o mesmo quarto de hotel.
  • A flexibilização para o consumo de bebidas alcoólicas em áreas licenciadas sem a necessidade de o turista obter uma licença governamental prévia.
  • A adaptação dos tribunais para permitir que os estrangeiros resolvam questões contratuais baseados nas leis dos seus países de origem.

 

Em suma, entender o sistema de governo de Dubai e a política nos Emirados Árabes Unidos ajuda o viajante a contextualizar a dinâmica da cidade. O modelo de uma federação de monarquias liderada pela família Al Maktoum em Dubai permitiu o desenvolvimento acelerado e a segurança pública rigorosa que definem o destino. Ao aliar a autoridade centralizada de um governo absolutista a um pragmatismo econômico ocidentalizado, o país conseguiu flexibilizar grande parte de suas leis estruturadas na Sharia, garantindo que as rigorosas regras de convivência islâmicas não se tornem um obstáculo para a expansão contínua do turismo global na região.